Continuação do conto “Nós, aqui, por entre o fumo” da obra O Burro-Em-Pé, de José Cardoso Pires
O
homem de família aceitou que as crianças fossem no seu carro inventado e
puramente imaginado, dar umas voltas por aí, longe do medo que as crises da mãe
lhes causavam. Este homem estava absorvido pelo complexo, e já só via números.
Os seus pensamentos derivavam de contas de subtrair e de somar… Quando não eram
mesmo aquelas complicadas de resolver, sabem? De multiplicar e dividir. É tão
impressionante pensar que este homem de família sabia-as de cor, e que lhe
bastava pensar por uns minutos, para apresentar o resultado de todas essas
contas. Punha-se a idealizar tudo o que compraria quando ganhasse a lotaria… Por
entre todo aquele fumo, vinha lá do fundo da rua e que entrava pelas
reentrâncias das janelas da cozinha, idealizava o seu carro velho mas capaz de
satisfazer as suas necessidades, roupas graciosas para oferecer à sua mulher,
bem como brinquedos e… sobretudo, como se até nem fosse o mais relevante,
comida. Comida de verdade, que ocupa lugar no nosso estômago e nos faz sentir
satisfeitos, vivazes, capazes de tolerar com mais facilidade os maus acordares
dos outros. Aquela que enche um prato, de carne ou peixe, tanto faz. Aquela que
põe sorrisos na cara das pessoas.
Um
dia, o homem de família voltava, como sempre, da taberna, num dia normal do seu
quotidiano. Ao passar pelas ruas da cidade, enquanto via todo aquele aparato fluorescente
e todo o deambular de pessoas de um lado para o outro, como se fossem máquinas
já manipuladas para certas funções, imaginava não viver numa casinha pequena e
fria, por trás de todo aquele mundo novo e deslumbrante. Como seria bom ganhar
a lotaria e comprar o seu idolatrado carrinho modesto, para viver a sua vidinha
modesta, com comidinha, um copinho de vinho e uma sobremesa vulgar mas
apetitosa, para uma refeição completa, capaz de agradar os seus filhotes e a
sua bela e humilde mulher. Ao entrar em casa, deparou-se subitamente com um
veículo velho no seu desgastado jardim, já seco pelo tempo. Naquela fracção de
segundo que avistou, inesperadamente, o veículo, houve duas ideias que
atravessaram a sua mente: a primeira, que a sua mulher tinha convidado os
colegas lá do trabalho para jantar, mas como o jantar ia ser água e fumo,
duvidou de imediato. A segunda, que era uma querida oferta de Deus, por todo o respeito
e admiração que tinha pela divindade. Afinal, o homem de família rezava todas
as noites e até ia à missa ao domingo, quando não era obrigado – por si mesmo
-, a reunir-se com os amigos para beber uns copos e deitar contas à vida. Com
um passo atrás, lá entrou dentro de casa e, como se o tempo lhe tivesse
facultado um grandessíssimo empurrão, fazendo-o voltar aos momentos de rebeldia
que tivera vivido na infância, o homem de família deparou-se com dois polícias
altos e robustos, sentados no sofá, à conversa com os seus dois filhos. Como já
tinha bebido uns copos com os amigos na taberna, ao deparar-se com aquilo, a
sua primeira reacção foi dizer “Olá! Não me digam que sou suspeito…”.
Rapidamente, a sua mulher fez-se aparecer por entre o corredor minúsculo, que a
ele lhe parecia tão infinitamente desmedido, transmitindo-lhe a ideia de que os
seus filhos haveriam roubado, com a ajuda de uns amigos mais velhos lá dá escola,
o carro que se encontrava no jardim, com a finalidade de oferecê-lo ao homem de
família, para que este, finalmente, realizasse o seu sonho. O homem de família
não pregou olho nessa noite, talvez por causa da choradeira que os seus dois
filhos não continham debaixo dos finos e frios cobertores da cama, ou talvez,
por causa do peso que os números faziam na nossa consciência.
A partir daquele momento, o “homem dos números” nunca mais usou números para nada que fosse. A partir daquele preciso instante, o homem passou a utilizar as palavras como forma de se expressar, pensando nas emoções e… Na comida.
A partir daquele momento, o “homem dos números” nunca mais usou números para nada que fosse. A partir daquele preciso instante, o homem passou a utilizar as palavras como forma de se expressar, pensando nas emoções e… Na comida.
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Ana Silvestre

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