fevereiro 02, 2013

José Cardoso Pires


Continuação do conto “Nós, aqui, por entre o fumo” da obra O Burro-Em-Pé, de José Cardoso Pires

            O homem de família aceitou que as crianças fossem no seu carro inventado e puramente imaginado, dar umas voltas por aí, longe do medo que as crises da mãe lhes causavam. Este homem estava absorvido pelo complexo, e já só via números. Os seus pensamentos derivavam de contas de subtrair e de somar… Quando não eram mesmo aquelas complicadas de resolver, sabem? De multiplicar e dividir. É tão impressionante pensar que este homem de família sabia-as de cor, e que lhe bastava pensar por uns minutos, para apresentar o resultado de todas essas contas. Punha-se a idealizar tudo o que compraria quando ganhasse a lotaria… Por entre todo aquele fumo, vinha lá do fundo da rua e que entrava pelas reentrâncias das janelas da cozinha, idealizava o seu carro velho mas capaz de satisfazer as suas necessidades, roupas graciosas para oferecer à sua mulher, bem como brinquedos e… sobretudo, como se até nem fosse o mais relevante, comida. Comida de verdade, que ocupa lugar no nosso estômago e nos faz sentir satisfeitos, vivazes, capazes de tolerar com mais facilidade os maus acordares dos outros. Aquela que enche um prato, de carne ou peixe, tanto faz. Aquela que põe sorrisos na cara das pessoas.
            Um dia, o homem de família voltava, como sempre, da taberna, num dia normal do seu quotidiano. Ao passar pelas ruas da cidade, enquanto via todo aquele aparato fluorescente e todo o deambular de pessoas de um lado para o outro, como se fossem máquinas já manipuladas para certas funções, imaginava não viver numa casinha pequena e fria, por trás de todo aquele mundo novo e deslumbrante. Como seria bom ganhar a lotaria e comprar o seu idolatrado carrinho modesto, para viver a sua vidinha modesta, com comidinha, um copinho de vinho e uma sobremesa vulgar mas apetitosa, para uma refeição completa, capaz de agradar os seus filhotes e a sua bela e humilde mulher. Ao entrar em casa, deparou-se subitamente com um veículo velho no seu desgastado jardim, já seco pelo tempo. Naquela fracção de segundo que avistou, inesperadamente, o veículo, houve duas ideias que atravessaram a sua mente: a primeira, que a sua mulher tinha convidado os colegas lá do trabalho para jantar, mas como o jantar ia ser água e fumo, duvidou de imediato. A segunda, que era uma querida oferta de Deus, por todo o respeito e admiração que tinha pela divindade. Afinal, o homem de família rezava todas as noites e até ia à missa ao domingo, quando não era obrigado – por si mesmo -, a reunir-se com os amigos para beber uns copos e deitar contas à vida. Com um passo atrás, lá entrou dentro de casa e, como se o tempo lhe tivesse facultado um grandessíssimo empurrão, fazendo-o voltar aos momentos de rebeldia que tivera vivido na infância, o homem de família deparou-se com dois polícias altos e robustos, sentados no sofá, à conversa com os seus dois filhos. Como já tinha bebido uns copos com os amigos na taberna, ao deparar-se com aquilo, a sua primeira reacção foi dizer “Olá! Não me digam que sou suspeito…”. Rapidamente, a sua mulher fez-se aparecer por entre o corredor minúsculo, que a ele lhe parecia tão infinitamente desmedido, transmitindo-lhe a ideia de que os seus filhos haveriam roubado, com a ajuda de uns amigos mais velhos lá dá escola, o carro que se encontrava no jardim, com a finalidade de oferecê-lo ao homem de família, para que este, finalmente, realizasse o seu sonho. O homem de família não pregou olho nessa noite, talvez por causa da choradeira que os seus dois filhos não continham debaixo dos finos e frios cobertores da cama, ou talvez, por causa do peso que os números faziam na nossa consciência.
            A partir daquele momento, o “homem dos números” nunca mais usou números para nada que fosse. A partir daquele preciso instante, o homem passou a utilizar as palavras como forma de se expressar, pensando nas emoções e… Na comida.

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Ana Silvestre

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