Crítica a Al Berto
Al Berto possui uma escrita pouco
problematizada nos aspectos teóricos e imaginados, apresentando, por isso, as
suas experiências do real e dos sentimentos que o envolvem, dando especial
valorização ao verdadeiro e apalpável e não ao intocável e imaginado. Em “O
Medo”, o poeta descreve-nos os seus desejos e a sua experiência da morte,
utilizando a escrita para, talvez, não ter que expor os seus sentimentos para
ninguém... Apenas para si, sendo o modo mais eficaz de conseguir satisfazer a
sua vontade de modificar o passado e garantir o futuro com vivacidade e saúde.
Considero Al Berto, para além de um óptimo e sofisticado escritor, um poeta
silencioso, mas perspicaz, que nos identifica rapidamente com algo muito
próprio e conciso. Este livro aborda temas recentes, silenciados pelo seu teor
sexual e, talvez, abusivo. Al Berto não receia a critica, não temendo
minimamente o impacto da sua escrita, notando-se uma vontade imensa de provocar
ao leitor sensações diversas. No
seu livro, confunde-se o conceito de poesia com o conceito de prosa, até mesmo
de diário íntimo, tal o desafogo com que Al Berto confronta a sexualidade e
todo o mundo do erotismo. Caracterizado pela dinâmica surrealista e
marcadamente obcecada pela experiência do real, das vivências nocturnas, do
mundo “da rua”, da luxuria e pelo seu próprio estatuto, que chega a ser
questionado por si mesmo. Tanto a sua insegurança pelo futuro, como a sua
entrega total ao presente, são referências que, ao ler os poemas de Al Berto,
são facilmente detectadas pelo leitor, pois este apresenta uma linguagem
directa e acessível, com referências concretas e de simples alcance.
Desde a publicação de À procura do
Vento num Jardim d’Agosto, em 1977, que Al Berto se converteu rapidamente num
dos poetas lusitanos de maior êxito dos anos oitenta. Nesse livro, o poeta
estimula toda a experiência com o corpo, premeditadamente excessiva, na qual o
sexo e a relação com as drogas ocupam um lugar significativo e essencial. A sua
poesia nutre, claramente, a sua autobiografia e a sua insatisfação, resultante,
essencialmente, das marcas do corpo sentido e quase que abusado pela vida.
Revelador, é talvez, um adjectivo que encaixe na sua poesia narcisista atenta
às experiências próprias e intensas, abordando as suas práticas homossexuais e
os seus devaneios com a droga, entrando num mundo escuro, de solidão e
melancolia. Numa sociedade extremamente conservadora e preconceituosa,
recentemente saída de uma ditadura, aparecer, nesse contexto, um poeta que fale
da homossexualidade com uma linguagem que explora os limites entre o lírio e o
obsceno é, no mínimo, um acto de coragem ou, talvez, de pura loucura. O
escritor assume, conscientemente, uma atitude provocativa e transgressora na
descrição das suas travessias pelas zonas mais obscuras da cidade,
identificando-a, tal como Cesário Verde, como o inferno e a perdição.
A quase inexistência de sinais de pontuação, faz com que os seus poemas, possam ser alvos de múltiplas leituras, que atribuem diversas reflexões de leitor para leitor. Para Al Berto, a poesia é a sua obsessão, a forma de criar um mundo através da palavra, uma maneira de encontrar a sua própria identidade, o modo de transcender, e ao mesmo tempo ocultar-se, na escrita. Al Berto era um poeta inteiro, de certo modo, até indispensável para a Literatura Portuguesa - “(...) o que aprendi com Al Berto foi a consciência profissional do poeta. Era-o, inteiramente; e ao viver apenas da poesia, e para a poesia, entregava-se a esse projecto que vinha da sua invenção desse nome - Al Berto - que é, por si só, todo um universo de significação a interrogar. A homenagem ao seu Alentejo árabe - sem dúvida; mas sobretudo essa fractura do nome, que é uma fractura do sujeito - e divisões pessoais, autobiográficas, correspondiam ao seu lado dilacerado e, por vezes, trágico; mas esse conflito conseguia-o superar numa entrega à festa, que fazia também parte da sua personalidade” – citação de Nuno Júdice.
A quase inexistência de sinais de pontuação, faz com que os seus poemas, possam ser alvos de múltiplas leituras, que atribuem diversas reflexões de leitor para leitor. Para Al Berto, a poesia é a sua obsessão, a forma de criar um mundo através da palavra, uma maneira de encontrar a sua própria identidade, o modo de transcender, e ao mesmo tempo ocultar-se, na escrita. Al Berto era um poeta inteiro, de certo modo, até indispensável para a Literatura Portuguesa - “(...) o que aprendi com Al Berto foi a consciência profissional do poeta. Era-o, inteiramente; e ao viver apenas da poesia, e para a poesia, entregava-se a esse projecto que vinha da sua invenção desse nome - Al Berto - que é, por si só, todo um universo de significação a interrogar. A homenagem ao seu Alentejo árabe - sem dúvida; mas sobretudo essa fractura do nome, que é uma fractura do sujeito - e divisões pessoais, autobiográficas, correspondiam ao seu lado dilacerado e, por vezes, trágico; mas esse conflito conseguia-o superar numa entrega à festa, que fazia também parte da sua personalidade” – citação de Nuno Júdice.
Toda esta filosofia aventureira e
individualista de apreender o seu mundo assemelhando-o a uma maldição, onde
estão associados os errantes e pecadores. Al Berto identifica-se com Rimbaud,
seguindo as suas características e afirmando-se como um negativista baseado no
real. O poeta tem as características de um herói moderno, pois no seu silêncio,
ele move e convence os seus leitores, quase que vencendo a sociedade com o seu
lado maldito. A proximidade do perigo, a realidade das suas expressões e a
virtude dos seus pensamentos, fazem da escrita de Al Berto única, profunda e
notável. Para criar este impacto, é preciso ser como Fernando Pessoa, muitos
mas único ao mesmo tempo. É preciso movimentar no “eu” uma multidão de vozes,
sendo uma delas a própria poesia. É imprescindível expor na poesia toda a vida
e todos os mínimos pensamentos, para que, na sua totalidade, ao ler cada poema,
sentir cada palavra. Al Berto é, sem dúvida, um dos mais marcantes poetas do
século XX. “A vida, afinal, talvez seja uma encenação do desespero” (Al Berto)
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Ana Silvestre
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Ana Silvestre

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