fevereiro 02, 2013

José Régio - O Meu Caso


O conteúdo da obra
            As personagens que dão vida a esta obra são: o desconhecido, o empregado, a actriz, o autor, uma colega da actriz, o primeiro espectador e o segundo espectador. O desconhecido, sendo a minha personagem favorita e também ele a principal nesta peça, mostra-se sendo uma pessoa confiante, um pouco paranóico, gozão, irrequieto, contestador, e no prolongar da peça, vai se mostrar também ele sábio e calculoso. O empregado tem como características o facto de ser bondoso, preocupado com o futuro da família, paciente e pacífico. Já o autor e a actriz, pelo contrário, são manipuladores, desconfiados, insensíveis, pouco amigáveis e egocêntricos.
A peça começa com o desconhecido a entrar pelo palco, excitado e eufórico. Refere várias vezes que a culpa é “deles”, parecendo maluco e demasiado estridente, dando inicio à peça. O empregado entra e começa a pedir desculpa ao palco e aos espectadores alegando que o individuo está fora de si e que não foi ele que o deixou entrar. Mostra-se preocupado, e afirma que se o autor da peça se aperceber que o senhor está lá, é despedido – como passa muitas dificuldades e a mulher tem problemas de saúde, pede desesperadamente para o desconhecido sair.
            No prolongar da peça, o desconhecido vai tentar a todo o custo contar o seu caso, afirmando que o caso do empregado não é nada senão banal comparado com o dele. Entretanto, ouvem passos e escondem-se atrás de um biombo, de maneira que ninguém os visse e aí entra em cena a atriz que começa a desabafar dizendo que se sente indecisa entre dois homens, que são diferentes mas que a deixam muito apaixonada, e dá algumas características de cada um. O desconhecido começa a rir e sai do biombo, em modo de desafio, dizendo que o caso da actriz era “bicudo” e ridículo. Queixa-se de ninguém lhe deixar falar do seu caso e deixarem a mulher falar de um caso tão medíocre. A actriz mostra-se muito assustada e insultada e começa então a prometer o despedimento do empregado, por ter deixado o desconhecido entrar em cena. Começa uma grande discussão entre os dois, e o desconhecido, em forma de gozo, mantém-se calado a escutar. O desconhecido ridiculariza a discussão dos dois e afirma que são casos estúpidos.
            O Autor surge, juntamente com outras actrizes e actores. O Autor mostra-se surpreso, e questiona que raio se passa lá, na sua casa, casa de respeito e onde se faz comédia. O desconhecido diz que está lá para contar o seu caso, “O caso do Homem” e volta a atacar, dizendo que o autor escreveu uma peça medíocre e que ele mesmo, é um crítico muito melhor. Começa ali uma grande discussão entre o empregado, a actriz e o autor, pois o empregado tinha falhado o seu trabalho de proteger as portas.  A Actriz diz que aquilo é uma palhaçada e que não quer mais apresentar o seu papel naquele dia, que já esta muito furiosa. O Autor diz que ela tem que apresentar, e entram também eles em conflito. O Desconhecido por sua vez, diz que é essa a humanidade que têm, cada um a pensar em si mesmos, e contra o vizinho. Uma perda de tempo, pois ele já podia ter apresentado o seu caso.
            Subitamente, levanta-se um espetador que, aborrecido, diz que é ridículo que se esteve a passar, que comprou um bilhete de teatro para relaxar e se distrair do stress do trabalho e família e que se depara com aquela fantochada. Pede para baixarem o pano. O pano começa a baixar, quando um segundo espetador se levanta, e diz para o primeiro espetador permanecer em palco, porque agora também ele faz parte da peça. O desconhecido puxa o segundo espetador e diz que ele também fez parte da trama, então que fique também em palco.
            O desconhecido afirma que até os espectadores, que deveriam estar lá para o ouvir, se levantam para lhe cortar a palavra. Cortar a palavra ao homem dos deuses, que foi enviado para se fazer ouvir. Quando ia finalmente contar o seu caso, o pano baixa, cortando-lhe também a palavra.

 A opinião do leitor
            Esta obra, na minha opinião, é bastante interessante até porque até agora nunca tinha estudado obras de teatro. Embora seja uma peça curta tem bastante suspense, pois no prolongar de todo o diálogo, nunca é revelado uma explicação para a persistência do desconhecido em contar o seu caso, o que me fez querer continuar a ler, para saber do que se tratava ao certo.
            Como características da acção, nota-se que é um diálogo directo com o público e que é um ciclo vicioso, andando sempre à volta do mesmo caso: os vários casos. Esta obra é isso mesmo, os vários casos das pessoas, que por mais medíocres e pequenos que sejam, são sempre mais importantes que o do outro, e assim sucessivamente, como um ciclo vicioso. As pessoas mostram-se egocêntricas e com falta de humildade, pois só pelo desconhecido parecer estridente e um pouco lunático, preferiam ouvir casos banais e sem interesse, ao dele, que pelo que estava a dizer, era um caso de tamanha importância. O discurso apresenta-se como sendo claro e conciso, de fácil absorção e compreensão.
Num só acto, José Régio, com todo o seu brilhantismo, fez transparecer uma das suas características mais presentes, a análise à problemática das relações humanas.

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Ana Silvestre

2 comentários:

  1. Muito boa tarde. Tinha apenas uma questão que gostaria que me respondesse, se não for um grande incómodo: Em que suporte tem esta obra ?

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    1. Peço imensa desculpa pelo atraso na resposta ao seu comentário. De qualque forma, não tenho esta obra em suporte digital, tive em tempos esta obra em papel, quando tive de a requisitar na biblioteca para um trabalho escolar. Espero ter ajudado apesar da demora! Beijinho

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