Poesia de Sophia de Mello Breyner
A poesia de Sophia pretende ser impessoal, pois nela não
encontramos registos pessoais, nem lamentações líricas de desespero ou de
comoção. Como cidadã do mundo que é, pretende retirar da realidade toda a sua objectividade,
por isso a sua obra é um exercício de
simplicidade sobre as coisas concretas.
Numa atitude semelhante à de Alberto Caeiro, a poetisa
abre os sentidos (sobretudo os olhos) às sensações que emanam da natureza e
nomeia as coisas para lhes restituir a sua realidade concreta e precisa. Contenção
de tom, discreta fluidez, simplicidade muito pura da expressão.
É evidente na sua obra o afloramento de muitos valores e
ideias eufóricos e disfóricos:
·
Concepção existencialista da vida (absurdo da
«viagem humana», inquietação);
·
Valores da antiguidade clássica (harmonia,
equilíbrio, poesia pura, justiça);
·
Função exemplar da literatura;
·
Noção do poeta como pastor do Absoluto;
·
Noção do Homem como o pastor do Ser;
·
Crença na verdade dos valores antigos;
·
O individualismo e o idealismo psicológico;
·
Originalidade e independência criadoras;
·
Humanismo Cristão – deus faz parte do seu mundo;
Deus é perfeição, beleza, bondade;
·
Fidelidade a valores nórdicos;
·
Crença em valores sebastianistas e messiânicos;
·
A natureza – mar, conchas, búzios, polvos,
ondas, espuma, areia/ vento, luar, árvores, pássaros, noite – simboliza
perfeição e mistério, o reencontro individual com a solidão, o lugar de união
com o que há de mais verdadeiro, livre e puro, é a fonte principal de inspiração;
·
A progressiva tomada de consciência dos
problemas sócio-políticos levou-a a incluir conteúdos sociais e éticos na sua
obra;
·
Quando fala de injustiça e de desigualdade
social, empresta a esses conteúdos a mundividência humanista cristã proveniente
da sua formação religiosa e das noções clássicas de harmonia e equilíbrio.
·
A cidade aparece associada à confusão que impede
o caminho da procura da perfeição, da harmonia e do equilíbrio clássicos. É a
este equilíbrio que se associam a justiça e a verdade;
·
Certas composições poéticas suas são
interpretações de obras de arte ou homenagens a outros poetas e artistas, sendo
de realçar o seu fascínio por Fernando Pessoa;
·
O tempo é também tratado, surgindo um «tempo
dividido» entre o presente e o futuro, sendo o presente o responsável pela
construção do futuro. Em oposição, ressalta um «tempo absoluto» que se reflecte
na natureza, no mar, no infinito.
Poesia = Belo
·
A poesia é uma “perseguição” do real, ou seja, o
real é o seu ponto de partida;
·
A poesia constrói, pelo rigor e verdade que
transmite, uma moral – Segundo Sophia, o poema é sempre uma construção de rigor
e de verdade, e todo aquele que é sensível à beleza de um poema não pode deixar
de ser sensível à injustiça e à ordem falsa do mundo. Mesmo aqueles poemas que
apenas falam da luz ou do ar são sempre um meio de denunciar a injustiça e o
sofrimento do mundo.
·
A poesia deve ser um meio para atingir a
liberdade e a dignidade do ser – recusa a ideia da «arte pela arte»,
sublinhando que meso o artista que escolhe o isolamento, pela sua produção
artística “influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o
destino dos outros”, porque “pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de
verdade e de consciência, ele irá contribuir para a formação de uma consciência
comum”.
A Temática
·
A sua poesia mantém permanentemente uma relação
especial com a natureza, nomeadamente com os quatro elementos primordiais. A
água (mar, espuma, praia), o ar (vento, brisa, sopro), o fogo (sol e luz) e a
terra (natureza, fauna e flora) constituem a “perfeição do universo”, daí que
Sophia, como poeta, um medianeiro do Absoluto, deva procurar a compreensão da
agitação cósmica, e apreender uma realidade pautada pela pureza, perfeição e
harmonia.
·
Elemento poético: o mar, a noite, a floresta.
·
A natureza é uma das principais fontes de
inspiração, conotada de significados diversos: tanto funciona como elemento
poético (o mar, a noite, a floresta) como contém a verdade antiga das origens e
do futuro; tanto se liga à ideia de beleza, pela sua perfeição e variedade de
cores, como aparece associada ao mistério (sereias, nereides, ninfas, ilhas,
pássaros estranhos e cores nunca vistas). Contém a verdade antiga das origens e
do futuro.
·
Por outro lado, e quase paradoxalmente, a noite
é “o espaço imenso que lhe consente visões em que pode satisfazer a sua sede de
libertação pelo sonho, de partida para as viagens mais imprevistas, pelo
imaginário e longínquo, da captação dos segredos adormecidos na memória.
A Natureza Marítima
·
Símbolo de totalidade, infinito, vida, eterno
movimento, aventura, transparência e abundância: MAR
·
Espuma, brilho, praia, areia, água, ilhas,
ninfas, sereias, ondas, conchas, búzios (muitas vezes fazem parte de imagens da
infância e da juventude – reconstituição nostálgica de um passado)
·
A natureza marítima está mais conotada com o
mistério, ligada àas origens da vida e, simultaneamente, do movimento
progressivo para o futuro.
·
Relacionada com o mar – a praia – que representa
o início, a transição para o mar, para a aventura... Ligada ao mar aparece,
também por vezes, a luz (o reflexo e a cor) como símbolo de transparência, de
pureza e harmonia.
A Natureza Terrestre
·
Os elementos terrestres aparecem com muita frequência
relacionados com a riquíssima memória do passado: infância e adolescência –
jardim e casa. O mundo passado reconstitui-se através da memória: tempo
recuperado.
·
Jardim Perdido = beleza; pureza dos dias
vividos; passado de sonho e fantasia.
A Cidade
·
Espaço em que a paisagem foi destruída para dar
lugar ao betão e ao asfalto...;
·
Conotação negativa;
·
Representa a destruição da natureza, a
substituição do natural pelo artificial (mas o homem parece não ter consciência
disso);
·
Falso paraíso da artificialidade, da mentira, da
hipocrisia (diferente da pureza da natureza).
A Injustiça e as Desigualdades Sociais
·
O sentimento de justiça associa-se à noção
clássica de equilíbrio, harmonia universal sem a qual nem o Homem nem o Poeta
se podem realizar plenamente.
·
Denúncia corajosa da opressão, do silêncio, do
obscurantismo, da alienação, da miséria, da hipocrisia, da perfídia e da
degradação que se viviam em Portugal em plena ditadura. O poeta denuncia as
injustiças, mesmo que de forma irónica, como salienta o poema “As pessoas
sensíveis” («As pessoas sensíveis não são capazes/ De matar galinhas/ porém
são capazes/ de comer galinhas»).
·
Procura da Justiça e da Verdade em todos os
planos da vida.
Características Estilísticas
·
Captação do real por meio de sensações que, por
vezes confundindo-se, originam sinestesias. A poetisa transfigura tudo através
da imaginação. As metáforas e as imagens constituem o fascínio do seu mundo
artístico irreal, daí a plurissignificação e a ambiguidade tão próprias dos seus
poemas.
·
A rima serve para criar beleza fónica, mas
também para realçar certas palavras chave do poema.
·
A pontuação é pouco utilizada de forma a não
tolher a imaginação e o sonho.
·
Discurso figurado com recurso a símbolos e
alegorias.
·
Uso de certas palavras dotadas de grande
simbolismo e magia: praia, jardim, justiça, mar, casa, luar, sol, água, vida,
morte, areia, terra, estrelas, beijo.
·
Liberdade de ritmo e métrica.

Sem comentários:
Enviar um comentário